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  • 31 jul 2014
    5 poemas imperdíveis do escritor Augusto dos Anjos

    5 poemas imperdíveis do escritor Augusto dos Anjos

    Em 2014 comemora-se o centenário da morte de Augusto dos Anjos, e o legado do poeta para a literatura brasileira é inestimável: sem se dizer membro de qualquer corrente literária, o escritor usava versos coloquiais e escrevia sobre temas polêmicos típicos do naturalismo. Era dessa forma que ele criava poemas inovadores que provocavam espanto e admiração nos leitores.
    Nascido na Paraíba em 1884, Augusto dos Anjos formou-se em Direito pela Universidade de Recife, mas resolveu seguir carreira no magistério e tornou-se professor de Literatura no Rio de Janeiro. Foi lá onde morou até pouco antes da sua morte em 1914, consequência de uma pneumonia.

    Embora seja muito conhecido atualmente, o poeta só tem um livro publicado: "Eu", do ano de 1912, dois antes da sua morte. Antes disso ele publicava os seus poemas em jornais periódicos. Para recordar os cem anos da perda deste grande poeta, nada melhor do que rever a sua obra. Separamos aqui 5 de seus poemas, Confira:

    1) Eterna Mágoa

    O homem por sobre quem caiu a praga

    Da tristeza do Mundo, o homem que é triste

    Para todos os séculos existe
    E nunca mais o seu pesar se apaga!

    Não crê em nada, pois, nada há que traga
    Consolo à Mágoa, a que só ele assiste.
    Quer resistir, e quanto mais resiste
    Mais se lhe aumenta e se lhe afunda a chaga.

    Sabe que sofre, mas o que não sabe
    É que essa mágoa infinda assim, não cabe
    Na sua vida, é que essa mágoa infinda

    Transpõe a vida do seu corpo inerme;
    E quando esse homem se transforma em verme
    É essa mágoa que o acompanha ainda!

    2) Psicologia de um Vencido

    Eu, filho do carbono e do amoníaco,
    Monstro de escuridão e rutilância,
    Sofro, desde a epigênese da infância,
    A influência má dos signos do zodíaco.

    Produndissimamente hipocondríaco,
    Este ambiente me causa repugnância...
    Sobe-me à boca uma ânsia análoga à ânsia
    Que se escapa da boca de um cardíaco.

    Já o verme -- este operário das ruínas --
    Que o sangue podre das carnificinas
    Come, e à vida em geral declara guerra,

    Anda a espreitar meus olhos para roê-los,
    E há de deixar-me apenas os cabelos,
    Na frialdade inorgânica da terra!

    3) Versos Íntimos

    Vês! Ninguém assistiu ao formidável
    Enterro de sua última quimera.
    Somente a Ingratidão - esta pantera -
    Foi tua companheira inseparável!

    Acostuma-te à lama que te espera!
    O homem, que, nesta terra miserável,
    Mora, entre feras, sente inevitável
    Necessidade de também ser fera.

    Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
    O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
    A mão que afaga é a mesma que apedreja.

    Se alguém causa inda pena a tua chaga,
    Apedreja essa mão vil que te afaga,
    Escarra nessa boca que te beija!

    4) O Morcego

    Meia-noite, ao meu quarto me recolho.
    Meu Deus ! E este morcego! E, agora, vede:
    Na bruta ardência orgânica da sede,
    Morde-me a goela ígneo e escaldante molho

    " Vou mandar levantar outra parede ..."
    - Digo. Ergo-me a tremer. Fecho o ferrolho
    E olho o teto. E vejo-o ainda, igual a um olho,
    Circularmente sobre minha rede

    Pego de um pau. Esforços faço. Chego
    A tocá-lo. Minh'alma se concentra.
    Que ventre produziu tão feio parto?!

    A consciência humana é este morcego!
    Por mais que a gente faça, à noite, ele entra
    Imperceptivelmente em nosso quarto.

    5) Agonia de um Filósofo

    Consulto o Phtah-Hotep. Leio o obsoleto
    Rig-Veda. E, ante obras tais, me não consolo...
    O Inconsciente me assombra e eu nele rolo
    Com a eólica fúria do harmatã inquieto!

    Assisto agora à morte de um inseto...!
    Ah!todos os fenômenos do solo
    Parecem realizar de pólo a pólo
    O ideal de Anaximandro de Mileto!

    No hierático areópago* heterogêneo
    Das idéias, percorro como um gênio
    Desde a alma de Haeckel à alma cenobial!...

    Rasgo dos mundos o velário espesso;
    E em tudo, igual a Goethe, reconheço
    O império da substância universal!

    Fonte: Universia Brasil

     

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